quinta-feira, 23 de agosto de 2007

ÁGUA E VINHO



http://www.youtube.com/watch?v=AYoEddbvBxI

Seguindo no clima "esperando com o dedo no Rec", lembrei dessa canção que eu tinha gravada do rádio em uma fita cassete muita antiga, em uma versão só com piano e uns sinos tocando ao fundo. Embora eu não seja conhecedor da obra de Egberto Gismonti, conheço essa canção apenas e tenho um carinho especial pela tradução da melancolia que ela traz, com suas escalas diferentes do padrão, traço da genialidade desse cara que é conhecido no resto do mundo, mais do que no Brasil que é seu país de origem...


Perdi a fita já faz um bom tempo, então, um dia desses, um amigo do lugar onde eu trabalho ria brincando que o chapéu que eu usava era parecido com o do Egberto...nesse momento lembrei do K7 gravado e comentei com ele que nunca mais havia escutado a música que estava gravada nele e da qual eu gostava bastante. Isso me fez em seguida procurar pela canção. Qual minha surpresa quando descobri que ela tinha uma letra - pois achei uma versão com letra, acho que cantada pelo próprio Gismonti, embora não esteja muito certo disso - muito bonita e que se encaixa perfeitamente no clima da melodia:


"Todos os dias passeava secamente na soleira do quintal

À hora morta, pedra morta, agonia e as laranjas do quintal

A vida ia entre o muro e as paredes de silêncio

E os cães que vigiavam o seu sono não dormiam

Viam sombras no ar, viam sombras no jardim

A lua morta, noite morta, ventania e um rosário sobre o chão

E um incêndio amarelo e provisório consumia o coração

E começou a procurar pelas fogueiras lentamente

E o seu coração já não temia as chamas do inferno

E das trevas sem fim. Haveria de chegar o amor."


Fiquei intrigado com essa letra na primeira vez que escutei, mas logo notei - e essa é minha interpretação, desculpe-me o autor se estiver errado - que o tema "morte" é chave da estória um tanto visual contada pelos versos, como se na verdade um espírito vagasse à espera de algo pelo dito quintal. Sou ligado nesse lado tristonho das coisas, e vejo uma grande beleza nele - embora isso seja questão pra analista e não pra esse blog, deixo aqui minha admiração por caras que saibam traduzir em letras sentimentos sem nome definido.


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